quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Internamento 14 dias

O prognóstico: Pesa menos de 2 quilos, temos que a levar para a neonatologia.
Vieram mostra-la, pequenina, tão pequenina que é a minha filha.

Fiquei eu no recobro mais de uma hora. Sozinha. A tremer. e a chorar.

Vieram me buscar e levaram-me para o piso das mães. Sem a minha bebe.

Estava sozinha com o meu saco de roupa.

Perguntaram-me se queria um quarto partilhado ou sozinha para descansar, assenti quando ela me propôs um quarto sozinha. Não sei, e ainda hoje não sei, qual seria a melhor opção.

Telefonei ao namorido: Já és papá. Ela nasceu mas está no internamento. É muito pequena. E chorei mais uma vez.

Nesse dia, não me deixaram levantar apesar da minha insistência. Vi a minha filha através das fotos que o papa tirou quando lá foi. Vieram falar comigo e disseram, a sua menina está estável. Sem necessidade de oxigénio. Está na incubadora porque não há espaço no berçário.

À 23h00, insisti mais uma vez e concordaram. Telefonaram para a neo, mas vinha de entrar um prematuro de alto risco e pediram para vir só por volta da 00h30.

A enfermeira disse para eu descansar que amanha à primeira hora acompanhava-me lá.

E assim foi, adormeci extenuada. E às 7h00, estava à porta da UCIRN.

Antes de entrar, explicaram-me as medidas de higiene: despir a roupa a mais, vestir bata, arregaçar mangas, lavagem de braços e mãos. Secagem.

Entrei e levaram-me ver a minha filha. Tão pequenina, cheia de fios. Muitos bip-bip contantes. Disseram que ela estava estável, o corpo estava a regular bem a temperatura. Nada de faltas de ar. etc. Eu só via os fios, o corpinho dela indefeso. Uma vontade de a aconchegar e de fugir longe de tudo.

Entretanto lá me explicaram, que neste momento, ela só precisava de engordar, todos os tests estavam ok. Ela não tinha neste momento qualquer problema a não ser o peso pluma.

Mesmo assim, coração de mãe está sempre preocupado.

Ao 2º dia: vieram falar comigo por causa do meu internamento do dia 08/02. Perguntaram-me se me sentia constipada ou com dores, tipo uma gripe. Disse que não que me sentia bem!
Explicaram-me que a rapariga que tinha estado comigo no quarto de internamento, tinha-lhe sido detectado a gripe A. E eu a pensar: mas que raio só agora é que vem avisar! Estou em contacto com uma prematura há dois dias e poderia estar contagiosa! F#&$&!!!

Por sorte, não tinha nada. Enfim!!!

Passávamos algumas horas com ela, a olhar para ela, sempre a ouvir os bips-bips. De vez en quando tinha que ir deitar-me que já não aguentava as dores dos pontos sentada numa cadeira ou mesmo em pé.

Na quinta-feira: já eu chorava por todos os cantos, não aguentava mais de 10 minutos ao pé dela, estava uma lástima, não falava com ninguém ao telemóvel porque já sabia que não ia conseguir aguentar. Disse ao Luís que tinha que sair de lá, rapidamente, precisava do aconchego e apoio do meu marido e lá, sentia-me vazia sem a minha filha.

Na sexta-feira: perguntaram-me se queria lá ficar, tendo em conta que tinha a menina internada, disse logo que não. Precisava da alta, precisava do aconchego do meu lar. Preferia aguentar as dores e andar horas de carro todos os dias e estar com ela o quanto me permitiam do que passar mais um único dia internada e sozinha.

E assim foi, deram-me alta. Passei pela UCIRN, expliquei que ia a casa e voltava ainda nesse dia. Eram 16h00.

Chegamos a casa (foi um martírio, as dores dos pontos). Fui directa ao quarto buscar umas quantas coisas necessárias, e explodi em lágrimas ao ver aquele berço, vazio.

Eu sabia que ela estava bem mas o vazio dentro de mim era tão forte, tão doloroso.

Voltando à UCIRN: Os apitos das máquinas eram bastante incomodativos, foram 3 dias que ela passou na incubadora, perturbaram-me pelo o facto de na mesma sala estarem bebes que cabiam na palma da minha mão. E eles sim, estavam todos intubados e ligados. Era uma aflição ver o desespero e o carinho dos pais dia após dia.Crianças com apenas 500 gr, a lutarem pela vida.

Foram 3 dias, entre sondas arrancadas pela piolha, exames, muitas picadelas, muitas negras nos calcanhares. O melhor foi os momentos de poder aninhá-la ao meu colo, tentar dar-lhe mama.

Após 3 dias, libertou-se espaço no berçario, sairam gémeos. E a minha filha foi transferida.

Um momento de pânico quando cheguei e não a vi que se transformou em alívio, por ela estar finalmente tocável, no berçário, onde finalmente eu poderia mima-la permanentemente, nem que fosse só com um dedo. Era o último passo antes da alta. Um óptimo sinal, dizia uma mãe que lá estava há mais de um mês.

Aqui todos os dias eram iguais e diferentes, a expectativa de pelo menos mais 10 gramas, a tristeza da estagnação do peso, depois o retirar da sonda para começar definitivamente com o biberon e ir tentando o peito. O desespero por ela não mamar a quantidade desejada. Os cocos e os pipis eram uma festa. A hora do banho. Tudo era uma pequena vitória naquele meio. E veio o dia, onde a pinguina chegou às 1980 gramas e autorizaram a sua saída por ela se portar bem.

No dia 23 de Fevereiro de 2010. Um renascimento.

Nós enquanto pais, vivemos entre medos, muitas lágrimas, comidas rápidas, autocaravana, poucas horas de descanso e para mim, muitas dores do pós-parto, onde não descansava nada e andava a pé e de pé demasiado tempo.

A alta dela desencadeou variadíssimos sentimentos para nós enquanto pais. Estávamos habituados aos cuidados das enfermeiras, ao bip bip que controlava a respiração dela.
A partir deste momento, já não tínhamos ninguém, a responsabilidade daquele ser é inteiramente nossa, mas vínhamos com quase um curso tirado de cuidados intensivos a prematuros, no que diz respeito a cuidar deles claro.

A pinguina também já vinha com a lição aprendida: mamava quando queria: horários livres, já tinha a rotina dela de dormir sozinha na caminha dela. O que ajudou muito para os descanso dos pais que andavam de rastos.

E aqui começou a nossa vida a 3.

A nossa lutadora, reguila, sorridente, mimosa. O nosso bem maior. Amo-te FILHA.

5 Comments:

Dora said...

o milagre da vida!

Mikas said...

Fogo agora consigo ter uma pequena ideia do que passaste...mas o que interessa é que a minha sobrinha está linda e saudavél e vai ter uma vida feliz:) bjs à princesa

Su said...

Parabéns à vossa pequenina e aos papás que com certeza vivem todos os dias a felicidade em crescimento!
Jinhos festivos

Susana said...

Possas nem imaginava do que tinhas passado. Graças a deus a tua menina ficou bem e correu tudo de bem.

Agora tens uma filhota linda com 1 ano de idade...

Bjs

Madame Pirulitos said...

Claro que tinha de voltar para ouvir o fim desta estória que sabia ser feliz.
Mas emocionei-me a valer.

Um beijo enorme e sempre a celebrar a vida!